"E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que
chamou, a esses também justificou; e aos que justificou,
a esses também glorificou." (Romanos 8:30)
A doutrinas da predestinação e da eleição, formuladas na
história da igreja cristã por teólogos como Agostinho de
Hipona (354-430) e João Calvino (1509-1564), têm sido
causa constante de acirrados debates e controvérsias,
porque muitos cristãos não estão dispostos a aceitá-las.
O monge britânico Pelágio (360-420) e João Wesley no
século XVIII são dois exemplos daqueles que não davam
valor a tal ensino. Pelágio defendia a idéia de que a
predestinação para a salvação ou condenação funda-se na
presciência de Deus. Ele não admitia uma predestinação
absoluta, mas sim uma predestinação condicional. Da
mesma forma, a Igreja Católica Romana e a maioria das
seitas pseudo-cristãs também condenam essas doutrinas.
Jacobus Arminius (1560-1609), ministro e teólogo
reformado holandês que deu surgimento ao sistema de
interpretação conhecido como "Arminianismo" (ver
tabela), defendeu a tese de que Deus anteviu os que
aceitariam a Cristo e então os elegeu para a vida
eterna. Armínio pregava que, apesar da Queda no Éden, o
homem ainda conserva o livre-arbítrio que lhe permite
aceitar ou rejeitar livremente a oferta de salvação de
Deus.
O que diz a Bíblia?
O fundamento da doutrina da predestinação é a doutrina
bíblica de Deus. Ele é o Eterno, acima e além do tempo e
do espaço, porque nunca houve um tempo quando Ele não
existia, de modo que Ele não está sujeito a mudanças de
tempo e de lugar (Ml 3:6; Rm 1:20-21; Dt 33:27; Is
57:15). Além disso, Deus é soberano sobre todas as
coisas como o Criador, o Sustentador e o Governante do
universo. Ele é soberano sobre tudo (Dn 4:34-35; Is
45:1; Rm 9:17; Ef 1:11). Deus é também soberanamente
justo, de modo que tudo quanto Ele faz está de acordo
com a perfeição da Sua natureza (Jr 23:6; 33:16; Rm
1:17; 10:3; 2 Pe 1:1). Na eternidade, Ele estabeleceu
Seu próprio plano e propósito soberano, e isso está
totalmente acima de qualquer coisa que o homem pode
cogitar, imaginar ou compreender. O homem, portanto,
pode conhecer o plano de Deus somente à medida que Ele o
revela (Jr 23:18; Dt 29:29; Sl 33:11; Is 46:10; 55:7; Hb
6:17).
A doutrina da predestinação refere-se primeiramente ao
fato de que o Deus Trino e Uno preordena (ou predestina)
de modo soberano tudo o que virá a acontecer na história
(Ef 1.11, 22; Sl 2).
Nas Escrituras não há um só termo, em grego ou hebraico,
que abranja todo o sentido do termo "predestinação". No
AT, várias palavras indicam o plano e propósito divinos:
esâ ("aconselhar",
Jr 49:20; 50:45; Mq 4:12); ya’as ("ter o propósito", Is
14:24, 26-27; 19:12; 23:9); e bahar ("escolher", Nm 6:5,
7; Dt 4:37; 10:15; Is 41:8; Ez 20:5).
No NT há ainda mais palavras que tem o significado de
"predestinar" (proorizo, Rm 8:29-30; Ef 1:5, 11),
"eleito" (eklektos, Mt 24:22; Rm 8:33; Cl 3:12) e
"escolher" (haireomai, 2 Ts 2:13; eklego, 1 Co 1:27; Ef
1:4).
O ensino da predestinação revelado nas Escrituras começa
com o relato da Queda do homem no Éden, evento que fazia
parte do Seu plano eterno, pois Deus nunca é
surpreendido por coisa alguma. Ao mesmo tempo, conforme
o apóstolo Paulo indica em Rm 1:18, a recusa do homem em
reconhecer a Deus como soberano e sua cegueira
deliberada diante dos mandamentos de Deus, trouxeram
sobre a humanidade a ira e a condenação divinas. Todos
os seres humanos estão tão corrompidos que se recusam a
reconhecer que Deus é Senhor e que eles mesmos são
apenas criaturas.
Entretanto, pela Sua infinita graça, tão logo o homem
pecou, Deus prometeu um Redentor que esmagaria o
tentador e traria restauração (Gn 3:15). Assim, o
propósito da redenção foi entrelaçado na história humana
desde o princípio.
Só os eleitos serão salvos.
A Bíblia mostra desde Gênesis que, devido à
pecaminosidade do homem, este não quer espontaneamente
procurar paz ou reconciliação com Aquele que é o seu
Criador. Este fato é demonstrado na história de Caim e
na pecaminosidade da civilização antediluviana (Gn 2:5).
Mas, ao mesmo tempo, a Bíblia também diz que havia uma
minoria fiel a Deus que descendia de Sete até Noé, sendo
que este foi chamado para sobreviver ao dilúvio e
continuar a linhagem daqueles que eram obedientes e
confiavam na promessa da redenção que Deus lhes deu. Uma
pessoa dessa linhagem foi Abraão, a quem Deus chamou
para sair de Ur dos caldeus, e quem, através dos
descendentes do seu neto, Jacó, estabeleceu Israel como
Seu povo no mundo pré-cristão. Tudo isso foi resultado
da graça divina que foi resumida na aliança que Javé
fizera com Abraão, Isaque e Jacó (Gn 12). Embora até
essa altura pouco se diga em Gênesis a respeito da
eleição e da condenação divinas, quando se tratava da
diferenciação entre Jacó e Esaú, foi deixado bem claro
que, até mesmo antes do nascimento dos dois, Jacó havia
sido escolhido e Esaú rejeitado, embora fossem gêmeos (Gn
25:19; Ml 1:3; Rm 9:10). Percebe-se aqui a primeira
afirmação clara da doutrina da predestinação.
Mas se Deus é absolutamente soberano, surge a questão da
possibilidade da liberdade e responsabilidade do homem.
Como podem coexistir as duas coisas? As Escrituras, no
entanto, repetidas vezes asseveram as duas verdades. As
observações que José fez aos seus irmãos e o argumento
de Pedro a respeito da crucificação de Jesus Cristo
ressaltam essa realidade (Gn 45.4; At 2:23). O homem ao
executar o plano de Deus, mesmo de modo contrário às
suas próprias intenções, faz isso de modo responsável e
livre. Neste sentido, Judas Iscariotes estava
predestinado desde o princípio a trair Jesus Cristo (Mt
26:23; Jo 17:12), embora tenha agido livremente para que
isso acontecesse. Mesmo usando os homens para alcançar
Seus propósitos, Deus nunca é o autor do pecado.
Deus não tinha a obrigação de salvar homem algum e
poderia agir com os homens como fez com os anjos que se
rebelaram contra Ele. Deus não seria injusto não
salvando nenhum homem, porque todos pecaram (Rm 5:12) e
se tornaram objetos da Sua justa ira.
Mas o amor de Deus se manifestou ao enviar seu Filho
unigênito ao mundo, para que todo aquele que nele crer
não pereça, mas tenha a vida eterna. (1 Jo 4:9; Jo
3:16). Todavia, a ira de Deus permanece sobre aqueles
que não crêem no Evangelho.
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Paradoxalmente, a fé é apresentada nas Escrituras como
sendo um dom de Deus (Ef 2:8,9; Jd 1:3). No livro de
Atos a fé é apresentada como obra da Graça (At 18:27). A
vida eterna é decorrente da Graça (At 13:48) e é Deus
quem abre o coração do pecador para que este venha a
crer no Evangelho (At 16:14).
Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em
sua misericórdia, mensageiros dessa alegre boa nova a
quem e quando Ele quer. Pela instrumentalidade deles, os
homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo
crucificado: "como crerão naquele de quem nada ouviram?
e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão
se não forem enviados?" (Rm 10:14-15).
Se muitas pessoas não crêem no Evangelho, é porque Deus
não lhes concedeu o dom da fé (2 Ts 3:2). Deus nesta
vida concede a fé a alguns enquanto não concede a
outros, de acordo com seu eterno decreto (At 15:18; Ef
1:11). De acordo com esse decreto, Deus graciosamente
quebranta os corações dos eleitos, por mais duros que
sejam, e os inclina a crer por meio da Palavra. Pelo
mesmo decreto, entretanto, segundo Seu justo juízo, Ele
deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza de
coração.
Desse modo, a eleição é o imutável propósito de Deus,
pelo que Ele, antes da fundação do mundo, escolheu um
grande e definido número de pessoas para a salvação, por
graça pura. (Ef 1:4-6; Rm 8:30).
Embora pareça claro que essas doutrinas são apresentadas
nos dois testamentos, juntamente com uma grande ênfase
na justiça e santidade soberanas de Deus, muitos
cristãos as têm rejeitado por vários motivos. As mesmas
perguntas sempre são levantadas: se Deus escolhe uns em
detrimento de outros, Ele não é arbitrário? Ele não
estaria fazendo acepção de pessoas? Essas doutrinas não
destroem o desejo de procurar viver uma vida moral e
praticar a justiça? Os que fazem tais perguntas acham
que assim condenam com eficácia essas doutrinas, mas
esquecem-se que essas mesmas perguntas já tinham sido
feitas e respondidas nos tempos de Cristo e dos
apóstolos (Mt 20:15; Rm 9:19-20).
Os que crêem nas doutrinas da eleição e predestinação
reconhecem que a sabedoria e a graça de Deus estão além
da compreensão humana e que devemos curvar-nos diante
d’Ele em adoração e louvor, como Paulo fez ao encerrar a
exposição dessas verdades (Rm 11:33-36). Aqueles que
assim fazem têm dentro de si um senso de conforto e
fortaleza que não vem deles mesmos, mas que é um dom de
Deus para capacitá-los a enfrentar o mundo com confiança
e paz de Espírito. |